Entrada de diário #1 – Algures entre o caminho

Quando a inspiração e a admiração não chega para tanto, derramo; vomito puros e genuínos sentimentos, pensamentos por polir. Não tão trabalhados, talvez, mas igualmente sentidos por este peito, decerto.
Nesta viagem pela vida, nestes carris do tempo, espero para explorar o que houver para explorar, e, inundado pela leveza deste cenário que me envolve, desta natureza inocente e pura que me enche de calores frescos e húmidos da vontade e da ventura, deixo-me levar.
Lá em cima, no terno firmamento que demonstra neste momento olhar por mim, como sempre parece ter feito, sem ter, de maneira nenhuma, conhecimento de que me cobre sob o seu manto, as nuvens pintadas pelo artista do tempo, esbatidas, salpicadas na tela azul da vida, envolvem-se, negras e claras, numa complacência infinita; estão a lutar, a disputar, misturando-se como dois espíritos destinados àquele momento somente, para sempre. Aqui em baixo, o verde hipnotizante da pluma da Natureza apaixonante a passar por mim como meras faíscas. Tento agarrar o momento, registá-lo, tentando já recordá-lo sem ao menos tê-lo vivido em primeira mão; mas tem que ser assim.
A inspiração da recordação que tudo me inspira aperta-me o peito, sinto-me capaz, quero continuar para isto, apenas para isto; sinto o peito explodir, as lágrimas a vir derramar nesta página o choro da criação, o remorso da saudade, ah!, o êxtase da vontade!
Em tudo à minha volta há algo, algo que me escapa e sempre escapará, algo que me inspira e sempre inspirará, algo que vive e sempre viverá, sempre, na pura infinidade da sua mundana perfeição divinal que anula tudo o resto e o submete à sua adoração. Oh!, que incapacidade de pensar isto que sinto, que dificuldade em aguentar tudo isto, que dificuldade em sentir isto que me envolve e de usá-lo para viver agora e sempre na memória finita dos registos.
Assim como as árvores gritam aos céus, também eu grito acima pelo que sinto ser-me necessário, mas o céu não ouve; nunca ouve. Ambos somos apenas varridos pelo vento que sopra e é forçado a seguir em frente.
Nestes carris que me prendem tento alcançar a alavanca que me permite mudar de direção, ou então fabricá-la, mas não encontro os instrumentos necessários para fazê-lo.
A névoa aproxima-se, o cinzento mais perto, sobre mim, assombrando, encurralando, sufocando, engolindo o trem que sou eu. As ruínas que visito no final da linha não mais são que eu mesmo; este desapontamento que sinto não mais é que o meu próprio peito.
Limito-me a ir aonde o caminho quiser ir.
Algures entre o caminho, 
30.05.2016