O Caminho (?)

“The virtuous man contents himself with dreaming
that which the wicked man does in actual life.”
-Sigmund Freud, “The Interpretation of Dreams”
 
“Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo.”
-Fernando Pessoa (apócrifo) // Augusto Cury, “Pedras no Caminho”
 
“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro”
-Mia Couto, (Fala de Tuahir), “Terra Sonâmbula”
 
“Qualquer caminho leva a toda a parte.
Qualquer ponto é o centro do infinito.
(…) Não há estrada senão na sensação,
é só através dela que caminhamos.
 
Tenhamos para nós mesmo a verdade
de aceitar a ilusão como real
sem dar crédito à sua realidade.
(…) Nossa própria viagem é viajante e estrada.
 
Que importa que a verdade da nossa alma
seja ainda mentira, e nada seja
a sensação (…)?
Faça-se a absurda viagem sem razão,
porque a única verdade é a consciência,
e a consciência é ainda uma ilusão.
 
(…) O caminho é de âmbito maior
que a aparência visível do que está fora,
excede de todos nós o exterior,
não pára as coisas, nem tem hora.
 
(…) Pó que a estrada deixa
e é a própria estrada, sem a estrada ser.
(…) Ir é ser. Não parar é ter razão.”
-Fernando Pessoa, “Qualquer caminho leva a toda a parte”
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A máquina que nos faz o caminho
percorrer apenas de culpa não
tem que se suster. É nosso o caminho
e percorremo-lo sozinho; não
há aqui neste deserto um outro alguém
que nos acompanhe de pé no chão.
Nosso destino sozinho não vem
e também nem nunca há-de ele chegar.
Mas não se considere o que está além.
O agora terá que nos contentar.
Tudo é uma forma de alguém ou de algo
agradar ou, então, desagradar.
Talvez, se o universo não tiver algo
que lhe doe significado algum,
ou simplesmente não for ele esse algo,
não tenha significado nenhum.
Mas, pois, se nada tem significado,
sendo o universo, como é, todo ele o Um,
qual é realmente o significado
de significado nenhum haver?
Se nada disto tem significado
ou agrado-desagrado acaba a ser,
então nossos sonhos alimentemos
que vão florescendo no nosso ser.
Sem razão p’ra o não fazer – se morremos
é única exceção. Tudo o que eles são,
os sonhos, são impulsos (que nós temos)
espasmódicos da alma, que se não
quer afogar em mar de realidade.
Mas então, se se esvaem e se vão,
o que fazer p’ra ante toda a verdade
não sufocar? Sonhos em si carregam
um universo na totalidade,
e, por isso, tudo neles congregam:
a reinvenção do mundo através
de nós próprios (assim nos elevam),
um processo ocorrido de viés;
poderes em deuses só concebidos
a nós nos dão; trocam-nos, ao invés
do real, por algo onírico a vida;
etéreo processo do ideal
a um simples passo, se com a subida
se aguentar, rumo ao destino em espiral
que, assim forçado, jamais chegará.
O que o torna tão mágico e imortal
é que sempre das mãos se escapará,
é sua eventual infinitude,
o quase que nunca se inteirará;
ao-deus-dará sua beatitude,
sua plenitude não mais concreta;
rege-se por sua vicissitude,
nada exterior a si acarreta.
Mas o caminho é longo, e caminhando
se faz. Este deserto é uma ampulheta
sem profundeza onde a areia, acabando
infinitamente, possa cair.
Tem sorte a borboleta que, voando,
não sabe por onde vai nem onde ir,
não sabe o que pela frente lhe espera,
não vê os trilhos por onde seguir,
não sabe se é, se será, se já era.
Apenas seguiu, inocente, vivendo
e descobrindo o que vida lhe dera.
Sejamos então, seguindo e querendo
sempre seguir até seguir não mais
podermos, borboletas absorvendo
tudo da vida, navios nos cais
em despedida, o infinito horizonte
olhando nos olhos eternos, quais
promessas e montes, sonhos e pontes
a que almejamos, numa ininterrupta
descoberta, bebendo a água da fonte
direta. Mas não deixemos corrupta
ficar a nossa visão, ou o sol
cessar, tudo escurecer, de uma abrupta
maneira. Levantemos o lençol
que o sol cobre e guardemos sempre puras
nossas intenções. Apenas no anzol
não caem as mais hábeis criaturas.
Assim, também somente os mais despertos
alcançam mais elevadas alturas.
São todas as motivações incertas
que, co’a corrente fluindo e subindo
as dunas, não sejam a descoberta.
Só assim se vai firme constituindo
a via: evitando-as. São apenas
miragens que, em ver-se, vão já sumindo:
distrações terrenas, visões obscenas,
quando o oásis se desvenda no fundo
da estrada que nunca se encontra plena.
Nunca acaba esta viagem profunda,
somente os nossos passos. No futuro
não pensemos, contudo; em quão fecundo
será, se será agradável ou duro.
Viver o presente é a certa maneira
de prever sem prever nosso futuro.
Continuemos com uma cegueira
saudável a carreira que seguimos
e caução tenhamos p’ra entre a poeira
olharmos os ladrões do que sentimos,
refletidos em espelhos perdidos.
É de nós próprios de quem fugimos.
Deixemos o que por preciso é tido.
Para sonhar é bastante querê-lo.
Ter medo é ficar pelo percorrido.
Meditar no futuro é não vivê-lo.
Desistir de tudo é abandonarmo-nos.
Mas deuses podemos ainda sê-lo
se mais para trás decidirmos deixarmo-nos
na estrada do que ainda alcançaríamos.
Nem tudo é que se perde ao dissiparmo-nos.
Se mais longe na rota chegaríamos
ou não, não poderemos atinar,
somente que, ao saber que cairíamos,
se assentou a via a nós se encurtar.
Co’as concedidas ambições divinas
o mundo conseguimos transmutar:
vales, colinas, águas cristalinas
aos nossos olhos são só desperdício;
e numa coroa de farpas finas
com que coroamos nosso suplício
moldamos o tempo, com cada espinho
sendo um momento perdido e fictício
(é vivido só na mente, sozinho;
como algo acontecido recordando-o)
que deitamos fora em nosso caminho,
abandonado e deserto, soltando-o.
22.10.2016