Os últimos dias da humanidade

Nossos pais são astrónomos que estrelas
nunca viram. Quando fitam os céus
negros, brilhar veem ambições nelas;
seus lúcidos telescópios por elas
abdicam, depondo os alheios pelos seus.
 
E a Natureza se obstrui aos seus planos,
de escuro ramos cativos debaixo.
tudo exterminando, causando danos.
Somos tão grandes como o que almejamos,
se não almejarmos descer tão baixo.
 
E confusas as línguas de Babel
na frágil torre de papel em terra,
inconfundível o universal fel
que lhes dita que, num eterno anel,
são inimigos; e que venha a guerra!
 
O magno homem co’a paz não é capaz
de, pacificamente, em paz estar,
senão em guerra, esta que incapaz
é de, abstraindo-se, sensato, em paz
deixar, eternamente, descansar.
 
Desde o pó do chão da génese prima
a salvação vã se encontrou perdida.
Do bem e do mal o dualismo afina
infindo conflito que no futuro o oprima:
a fatal chave dentro de si escondida.
 
Se o há sempre acompanhado a ambiguidade
e são dele e ele os azares e alegrias,
sem o mal, que valor tem a pacificidade?
Os últimos dias da humanidade
são os que vivemos todos os dias.
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