Os últimos dias da humanidade

Nossos pais são astrónomos que estrelas
nunca viram. Quando fitam os céus
negros, brilhar veem ambições nelas;
seus lúcidos telescópios por elas
abdicam, depondo os alheios pelos seus.
 
E a Natureza se obstrui aos seus planos,
de escuro ramos cativos debaixo.
tudo exterminando, causando danos.
Somos tão grandes como o que almejamos,
se não almejarmos descer tão baixo.
 
E confusas as línguas de Babel
na frágil torre de papel em terra,
inconfundível o universal fel
que lhes dita que, num eterno anel,
são inimigos; e que venha a guerra!
 
O magno homem co’a paz não é capaz
de, pacificamente, em paz estar,
senão em guerra, esta que incapaz
é de, abstraindo-se, sensato, em paz
deixar, eternamente, descansar.
 
Desde o pó do chão da génese prima
a salvação vã se encontrou perdida.
Do bem e do mal o dualismo afina
infindo conflito que no futuro o oprima:
a fatal chave dentro de si escondida.
 
Se o há sempre acompanhado a ambiguidade
e são dele e ele os azares e alegrias,
sem o mal, que valor tem a pacificidade?
Os últimos dias da humanidade
são os que vivemos todos os dias.

A guitarra

O meu peito é uma guitarra
que sente que quer chorar.
Quando acorda, geme e agarra
suas cordas devagar.
E penosas faz vibrar
as cordas do desabafo,
e põe-se então a atuar
p’ra o público co’embaraço.
E abrindo-se assim, cora
(irão troçar ou aplaudir?).
A pobre guitarra chora
sem ninguém para a ouvir.
17.01.2017

Soneto serpentil

Sensações sãs se insinuam suavemente
como solenes sonhos sóbrios qu’sonho
sem d’scansar. Entre preces, peço à mente,
à pressa, que de mim o sonho, inconho,
 
separe, e cesse o ciciar sem fim
dessa sensação sem si que, insincera,
me alicia e desassocia de mim,
dissimula e simula o qu’ser pudera.
 
Sente-se saudade do real que adoece
face à ficção nociva que se tece.
E tento: oponho esse sonho medonho
 
que ofusca a busca da sinceridade,
sem saber ser sem sensibilidade.
Mas saberei se não sou eu o sonho?
16.01.2017