A viagem

Respirar, respirar,
aspirar este ar
puro e duro
do futuro imaginado,
os pulmões encharcar
com a esperança húmida
desta alma carcomida
pelo tempo,
e esperar que a inundação
afogue tudo o resto.
Flutuar entre os destroços,
só e silencioso,
navegar através dos esboços
das espadas de luz
que se abrigam na saudade;
e violenta como uma onda
se revela a verdade.
Fugir,
nado no céu enevoado
por entre a bruma espessa e molhada,
com medo de cair
no chão lá abaixo.
Nadar, nadar,
atravessando sem parar
a aurora celestial
coberta pelas nuvens
negras da chuva do temporal.
As nuvens finalmente vomitam
e as leves e límpidas gotas gritam
ao se estatelarem no chão de granito
como um surdo bater de coração;
pois este no meu peito, aflito,
treme e ruge através do vento,
que me corta a face
com navalhas do tempo.
Lá em baixo o dilúvio,
cá em cima o distúrbio…
Mergulho, nado por entre a neblina.
Tão suave, tão fresca, tão espessa é ela
e a bela realização de que nada importa
senão a criação do sentimento
espalhado pelo vento
através da face inundada da terra.
E é meu destino
continuar a viver,
mas posso também aqui morrer.
Vida e Morte com o mesmo valor,
morrer de livre vontade, sem dor;
a única liberdade absoluta.
A espuma negra, o vento,
tudo ameaça me romper.
Deixo-me cair com desalento
nos braços de Póntos
como uma fruta da árvore do tempo.
Rasgo o ar, a atmosfera,
o meu corpo, a minha vida,
a razão perdida
de uma mente austera
e esquecida.
Em contraluz se repara melhor
na felicidade entre a dor
e o ardor
de viver.
E ínfimos raios de sol
penetram na sombra
dos escombros
do meu ser
como agulhas de pó
que se cola
e permanece para sempre.
Pequenos salpicos de prazer e alívio
morrinham sobre a essência
da consciência,
e, sem esperar o mais pequeno declínio,
finalmente expludo na água abaixo
com o ruído de mil vil canhões
numa guerra de inverno.
Ah! Que frescura!
Que alívio!
Deixo-me envolver
pela poderosa força
da água, que me arrasta
e desgasta
sob a sua pressão.
Finas cápsulas de ar
formam bolhas
que me envolvem e lavam,
e levam a flutuar
pelos confins do mar.
A escuridão profunda,
silêncio ensurdecedor,
sinto-me emergir do fundo
e sentir o breve ardor
que o vento sopra.
O vento fechou a página,
não há mais nada a dizer,
por mais que eu possa querer.
Sinto tudo embaciar.
Estar cá sem cá estar.
A luz apagou,
o vento acabou,
a fonte secou.
A mão parou.
27.05.2016
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