Tudo isto sou eu

Quando nada atende
aos meus anseios,
delírios e devaneios,
ou quando simplesmente se prende
a mim um desconforto
que me deixa absorto
no meio da multidão,
recorro à tinta, à mão;
 
Me refugio no papel,
onde vomito fel,
onde a todo o sangue
do meu coração
não se criam barragens,
onde não há costas nem margens,
onde mergulho e, mudo,
expludo e prolongo
o que vivo
até quando se destruírem
os vestígios de que vivo.
 
Silencioso,
superficialmente tranquilo,
exponho o meu interior
à curiosidade de um leitor
que não conheço nem conhecerei,
mas do qual sei:
a mim me conhece até ao núcleo.
 
Todo o mundo o sinto eu,
e no fundo sei que doeu
a quem sente e a quem me leu.
Tudo isto sou eu.
 
Sou a página rugosa e amarelada.
Sou a mão hesitante e dorida.
Sou a tinta negra derramada.
Tudo isto é a minha vida.
23.05.2016
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