Biografia de um indolente

Na prateleira poeirenta
encontrei, perdido,
um pequeno livro magenta
com lombada de tecido,
habilmente cozido
para o texto escondido
não se revelar.
 
Abri-o, curioso,
disposto a ler
o que o livro
quisesse sussurrar-me,
e, languidamente,
ao ler as primeiras linhas,
se penetrou em mim
um desconforto sem fim.
 
Do autor se dizia
que entre as duas datas
não se passaria
nada, senão o vazio
de viver.
 
Uma vida como a minha,
ténue, normal, atribulada,
se resume a duas datas,
sem preocupação
em polir as pratas
da alma que este tinha.
 
Reparo no mundo, no futuro,
no pacato e sereno escuro
que nos aguarda, e penso
se consistirá a minha vida
em dois míseros
conjuntos de números
 
Ah!, que sentimento de desgosto puro
percorre este corpo,
que serenamente se afunda
na indiferença torpe
que descobre tudo à sua volta.
 
Tudo isto que conheço,
que sempre conheci e conhecerei,
se encurta sem apreço,
aos olhos dos outros,
a pouco mais que uma palavras;
e isto que considero sem preço,
por mais criações puras ou macabras,
não é mais que um singular dígito.
24.05.2016
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