O Encontro das Sombras

Neste quadro de giz
negro e seco
escrevo e sinto
o destino que fiz.

 

Minto que sinto,
pois sentir não sinto
senão os sonhos que pinto
de encarnado tinto.

Pego no pincel
e na tela lisa pinto
através das palavras
os sentimentos que sinto.

E neste quadro, completo
os meus desejos repletos
da fuga deste lugar
obsoleto.

Sinto a tinta espessa
e viva
fluir da ponta da ferramenta
que se movimenta altiva.

E dos pêlos suaves
e húmidas da expectativa
se criam os sonhos
e esperanças impulsivas.

Ponto a ponto
se constrói a obra,
e lentamente
se adiciona o que sobra.

Se ligam os pontos
cruzados, desalinhados,
e desvenda-se o fado
entre os picotados.

Os picados formam linhas,
austeras, completas, firmes,
fundamentalmente inconsoláveis
e impreterivelmente inevitáveis.

As linhas se conjugam e se enrolam,
grandes formas vívidas se formam
e no caminho do peregrino acordam
formas turvas e negras, o caminho deformam.

Alto se elevam
sombras densas que levam
a respiração do peregrino
e transmutam o caminho.

As flores arrefecem, entristecem,
perante a presença das sombras
e sucumbem ao assombro
do sopro gelado da desesperança.

As árvores escurecem,
os frutos apodrecem.
O caminho enegrecem;
e as sombras prevalecem.

Dissolvem-se as esperanças
sob o manto da noite,
e como um açoite na alma
se desvanece a confiança.

Carecem de sentimento
as sombras da noite.
As pernas peregrino amolecem
ao sopro do vento.

Transformaram a paisagem
e a vida do caminhante,
que sem coragem
se mantém distante.

Num instante
de um sussurro gritante
e cortante
as sombras se esclarecem.

Com uma abordagem
anormal e que agoura,
bloqueavam a passagem
por uma razão assustadora.

“Viemos em má hora?”,
se ouviu perguntar
uma delas,
ao que o peregrino decidiu não replicar.

Bloqueariam a passagem
e suspenderiam a viagem
enquanto ao peregrino
não lhe entregassem a mensagem.

Chamando a atenção
se sobrelevam e levam
a vontade já nula do peregrino
para criar conversação.

À espera de carnagem,
o forasteiro não descansa;
os seus braços balança
mas de maneira nenhuma reagem.

“Tem que ser uma miragem”,
pensou o estrangeiro
perante a imagem
das trevas.

“Algum tipo de chantagem?”
Romperam mais pensamentos.
“Tem que ser miragem”,
pensou já com desalento.

As sombras se revelaram:
Uma delas avança
e sem esperar a mudança
se declara Destino.

Desatino pensou ouvir
o trémulo peregrino
que perante o Destino
pensava apenas em fugir.

Outra avançou,
com passo menos forte,
e com um breve sussurro
se declarou a Sorte.

Morte pensou ouvir
o peregrino de pequeno porte,
que perante a postura da Sorte
morria por se escapulir.

Por fim se decidiu
a última a avançar,
e sem mais nenhum atraso
se declarou Acaso.

Prazo pensou ouvir
e paralizado esperava o ocaso
que se lhe revelava
na figura do Acaso.

Sem esperanças de se evadir
pôde apenas ouvir,
ferido pelo abalo,
o que as levou a encontrá-lo.

“Poderás o teu caminho
prosseguir
assim que nossos discursos
termines de ouvir”.

Então, assustado,
ainda assim permaneceu
no caminho, parado,
para ouvir o que aconteceu.

E assim começou
o Destino a falar:
“Apenas irás continuar
se conseguires aguentar.”

“Aguentar o quê?”,
perguntou, aterrado,
o franzino peregrino
num sussurro forçado.

“Os obstáculos que criei
no teu caminho desocupado;
e apenas te poderás submeter
às vontades do fado”.

“Mas todo este caminho
por onde tenho andado
sempre me pareceu, no passado,
muito do meu agrado.”

“E por isso mesmo o encontrarás
mais à frente perturbado;
e apenas te poderás submeter
às vontades do fado.”

Seguiu-se então a Sorte
a fazer o seu discurso:
“Não encontrarás senão azar
em todo os teu percurso”.

“Mas em todo o meu percurso
se me invadiu a sorte”;
“Que importa isso?
A partir de agora será torpe”.

Por fim falou o Acaso,
decidido a terminar
com a esperança de um ser tão raso
com um só sussurrar.

E sem fazer caso,
deu azo
ao seu raso arraso
e principiou:

“No teu caminho não irei propor
nada que não seja premeditado;
e teu destino não é dos melhores,
morrerás se não tiveres cuidado”.

“Mas morto estou já eu
perante tais figuras,
que me condenam e roubam
tudo o que é meu.”

“O que te tiramos
não é senão
tudo o que antes te demos
ao nascimento como bênção.

“Mas tiramos-to agora,
e deixamos-te ir embora,
mas espera e verás
que tudo eventualmente melhora”.

“Como pode melhorar
quando me acabam de tirar
tudo o que na vida
me conseguia agradar?”

“Não questiones o fado,
apenas podes aceitar.
Engole lá o teu enfado
e volta a caminhar”.

“A caminhar não voltarei,
pois nada tenho que me mova;
Não tenho nada a perder; e não o penso fazer
nem que chova nem que morra.”

“Sendo assim, a escolha é tua”,
friamente sussurraram
as três sombras, juntas
à luz da lívida lua.

Conjugaram-se e se ergueu
sob o escuro e tenebroso céu
um véu de uma névoa de tristeza negra
que o caminho e tudo consumiu.

Grito, e o eco,
seco e incompleto,
se estampa e entranha
na superficie preta.

Esculpidas
na mármore da alma,
esperanças queridas
são o fogo da calma.

Mas antes se escrevem as profecias
de esperanças perdidas
que sigo cegamente
e rapidamente são despidas.

06.05.2016

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