A Caverna

O murmúrio repete-se
e se escapula
desta gruta onde se tece
a vontade nula
de viver,
que se formula
nos confins do seu ser.
 
Nesta toca cavernosa,
onde habito silencioso,
se ouvem as gotas chorosas
da chuva cair, preguiçosamente,
nas faces de feições forçosas
esculpidas na mármore descrente
da pérfida gente, lá fora.
 
E neste subterrâneo permaneço
e cresço,
distinto de todos
os instintos e modos
de agir entre o lodo
da humanidade podre
e pretensiosa.
 
Lá fora, entre a confusão e humilhação
dos pútridos homens, as gotas roem e oferecem
a tais parasitas
o castigo que merecem:
das suas bocas se lavam e desvanecem
os mantos de aparências bonitas
constritas nas palavras ditas.
 
E disfarçando, escondem
as marcas da desonra que carregam
no seu sórdido ser;
e abraçando a hipocrisia,
e embrulhando-se na ignomínia,
como tem que ser,
os olhares à sua volta cegam.
 
E cegos, todos eles,
ainda assim navegam
e sobrecarregam o mundo
com a sua natureza reles;
Contudo, incapazes
de penetrar: na caverna não entram,
esta que observa todos do silêncio profundo.
 
E esta caverna,
tão lúgubre e torpe,
não chega à imundície
que lá fora governa
e infinitamente se encorpe
e rompe com a demente sanidade
da honestidade nesta cidade de maldade e vaidade.

03.05.2016

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