Concerto de sangue

As cordas da alma vibram
como as cordas de uma guitarra.
Entoam cá dentro como um musical
de sentimento e pensamento.
 
Toda a letra é nota,
toda a palavra um ritmo,
cada verso uma melodia,
tudo o que escrevo sou eu.
 
Começo a cantar,
dançar nas linhas que sangro,
pensar na sinfonia
de sentir,
e sentir no corpo a alegria
de poder relaxar, um dia.
 
As articulações de pensamentos
movem-se com alento
e manifestam-se, explodem
na cabeça, na mão, no tempo.
 
Toda a letra é carne,
toda a palavra um membro,
cada verso um orgão,
tudo o que escrevo sou eu.
 
Tudo se derrama e entope,
e esta triste chama
é tudo o que me move.
 
Coração de palha,
alma de lava,
escorre e incendeia
e tudo lava.
 
As pulsações das palavras
são tudo o que me resta,
e todas me prestam
o auxílio de que necessito.
25.05.2016

Biografia de um indolente

Na prateleira poeirenta
encontrei, perdido,
um pequeno livro magenta
com lombada de tecido,
habilmente cozido
para o texto escondido
não se revelar.
 
Abri-o, curioso,
disposto a ler
o que o livro
quisesse sussurrar-me,
e, languidamente,
ao ler as primeiras linhas,
se penetrou em mim
um desconforto sem fim.
 
Do autor se dizia
que entre as duas datas
não se passaria
nada, senão o vazio
de viver.
 
Uma vida como a minha,
ténue, normal, atribulada,
se resume a duas datas,
sem preocupação
em polir as pratas
da alma que este tinha.
 
Reparo no mundo, no futuro,
no pacato e sereno escuro
que nos aguarda, e penso
se consistirá a minha vida
em dois míseros
conjuntos de números
 
Ah!, que sentimento de desgosto puro
percorre este corpo,
que serenamente se afunda
na indiferença torpe
que descobre tudo à sua volta.
 
Tudo isto que conheço,
que sempre conheci e conhecerei,
se encurta sem apreço,
aos olhos dos outros,
a pouco mais que uma palavras;
e isto que considero sem preço,
por mais criações puras ou macabras,
não é mais que um singular dígito.
24.05.2016

Os meses que um dia tem

Já ouvi perguntar
quantos dias tem um mês,
mas entre todos estes porquês
nunca antes ouvi questionar
quantos meses tem um dia.
 
Os que forem precisos,
respondo eu,
para aguentarmos,
continuarmos a arrastar-nos.
 
Sejamos concisos:
pois quantas vezes
não envelheci e cresci eu
num dia
o que cresceria
em meses,
neste mundo que não é meu?
23.05.2016

Tudo isto sou eu

Quando nada atende
aos meus anseios,
delírios e devaneios,
ou quando simplesmente se prende
a mim um desconforto
que me deixa absorto
no meio da multidão,
recorro à tinta, à mão;
 
Me refugio no papel,
onde vomito fel,
onde a todo o sangue
do meu coração
não se criam barragens,
onde não há costas nem margens,
onde mergulho e, mudo,
expludo e prolongo
o que vivo
até quando se destruírem
os vestígios de que vivo.
 
Silencioso,
superficialmente tranquilo,
exponho o meu interior
à curiosidade de um leitor
que não conheço nem conhecerei,
mas do qual sei:
a mim me conhece até ao núcleo.
 
Todo o mundo o sinto eu,
e no fundo sei que doeu
a quem sente e a quem me leu.
Tudo isto sou eu.
 
Sou a página rugosa e amarelada.
Sou a mão hesitante e dorida.
Sou a tinta negra derramada.
Tudo isto é a minha vida.
23.05.2016

Vilão

Nisto tudo sou o vilão,
e sei-o.
Mas creio
ter razão
para o ser,
quando no amanhecer
da inspiração
sinto entorpecer
o meu coração,
que, sem outra opção,
se resume a ser,
existir sem querer;
ter que estar
onde não quer,
com quem não quer.
 
Mas não, não me leiam mal,
não pretendo de maneira formal
justificar o mal
que sei que cometo
ao praticar, normal,
os atos que pratico.
 
Acreditem, facilmente deteto
no meu ser
um desprezo natural
que, quase involuntariamente, injeto
em tudo à minha volta.
 
E a todo esse desprezo
não me escapo eu ileso,
e, preso
à auto-aversão,
sigo em direção
à derradeira criação
que esta mão
alguma vez criará.
21.05.2016