Death & Life

Dying is the only way of living, and to
     Live one has only to accept it.
Ever our existence in the pit between the two
     Is confined. Life is the spit
Alive we bear, Death the tissue
     Fools to their faces clean use. Greet
The gods we, if they are here? In the cruel
     Events that pass is there anything other than ourselves? It
Has to, or does it not? The fool fell off the stool.
Darkness is but the absence of Light,
     Light but the absence of the Dark.
Entered once in the oblivion’s flight
     Inside the essence of our spark,
As it the black inside us fights,
     Forlorn both in space and time and from their own selves apart,
The contrast is only abstract, there is no joy nor plight.
     Ere the fire whole burns out, ere the rotten path shall part,
Here’s where I’ll stay, the eternal nothing, the night no ember can ignite.
11.04.2017 (Paris)
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O Caminho (?)

“The virtuous man contents himself with dreaming
that which the wicked man does in actual life.”
-Sigmund Freud, “The Interpretation of Dreams”
 
“Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo.”
-Fernando Pessoa (apócrifo) // Augusto Cury, “Pedras no Caminho”
 
“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro”
-Mia Couto, (Fala de Tuahir), “Terra Sonâmbula”
 
“Qualquer caminho leva a toda a parte.
Qualquer ponto é o centro do infinito.
(…) Não há estrada senão na sensação,
é só através dela que caminhamos.
 
Tenhamos para nós mesmo a verdade
de aceitar a ilusão como real
sem dar crédito à sua realidade.
(…) Nossa própria viagem é viajante e estrada.
 
Que importa que a verdade da nossa alma
seja ainda mentira, e nada seja
a sensação (…)?
Faça-se a absurda viagem sem razão,
porque a única verdade é a consciência,
e a consciência é ainda uma ilusão.
 
(…) O caminho é de âmbito maior
que a aparência visível do que está fora,
excede de todos nós o exterior,
não pára as coisas, nem tem hora.
 
(…) Pó que a estrada deixa
e é a própria estrada, sem a estrada ser.
(…) Ir é ser. Não parar é ter razão.”
-Fernando Pessoa, “Qualquer caminho leva a toda a parte”
———————————–
A máquina que nos faz o caminho
percorrer apenas de culpa não
tem que se suster. É nosso o caminho
e percorremo-lo sozinho; não
há aqui neste deserto um outro alguém
que nos acompanhe de pé no chão.
Nosso destino sozinho não vem
e também nem nunca há-de ele chegar.
Mas não se considere o que está além.
O agora terá que nos contentar.
Tudo é uma forma de alguém ou de algo
agradar ou, então, desagradar.
Talvez, se o universo não tiver algo
que lhe doe significado algum,
ou simplesmente não for ele esse algo,
não tenha significado nenhum.
Mas, pois, se nada tem significado,
sendo o universo, como é, todo ele o Um,
qual é realmente o significado
de significado nenhum haver?
Se nada disto tem significado
ou agrado-desagrado acaba a ser,
então nossos sonhos alimentemos
que vão florescendo no nosso ser.
Sem razão p’ra o não fazer – se morremos
é única exceção. Tudo o que eles são,
os sonhos, são impulsos (que nós temos)
espasmódicos da alma, que se não
quer afogar em mar de realidade.
Mas então, se se esvaem e se vão,
o que fazer p’ra ante toda a verdade
não sufocar? Sonhos em si carregam
um universo na totalidade,
e, por isso, tudo neles congregam:
a reinvenção do mundo através
de nós próprios (assim nos elevam),
um processo ocorrido de viés;
poderes em deuses só concebidos
a nós nos dão; trocam-nos, ao invés
do real, por algo onírico a vida;
etéreo processo do ideal
a um simples passo, se com a subida
se aguentar, rumo ao destino em espiral
que, assim forçado, jamais chegará.
O que o torna tão mágico e imortal
é que sempre das mãos se escapará,
é sua eventual infinitude,
o quase que nunca se inteirará;
ao-deus-dará sua beatitude,
sua plenitude não mais concreta;
rege-se por sua vicissitude,
nada exterior a si acarreta.
Mas o caminho é longo, e caminhando
se faz. Este deserto é uma ampulheta
sem profundeza onde a areia, acabando
infinitamente, possa cair.
Tem sorte a borboleta que, voando,
não sabe por onde vai nem onde ir,
não sabe o que pela frente lhe espera,
não vê os trilhos por onde seguir,
não sabe se é, se será, se já era.
Apenas seguiu, inocente, vivendo
e descobrindo o que vida lhe dera.
Sejamos então, seguindo e querendo
sempre seguir até seguir não mais
podermos, borboletas absorvendo
tudo da vida, navios nos cais
em despedida, o infinito horizonte
olhando nos olhos eternos, quais
promessas e montes, sonhos e pontes
a que almejamos, numa ininterrupta
descoberta, bebendo a água da fonte
direta. Mas não deixemos corrupta
ficar a nossa visão, ou o sol
cessar, tudo escurecer, de uma abrupta
maneira. Levantemos o lençol
que o sol cobre e guardemos sempre puras
nossas intenções. Apenas no anzol
não caem as mais hábeis criaturas.
Assim, também somente os mais despertos
alcançam mais elevadas alturas.
São todas as motivações incertas
que, co’a corrente fluindo e subindo
as dunas, não sejam a descoberta.
Só assim se vai firme constituindo
a via: evitando-as. São apenas
miragens que, em ver-se, vão já sumindo:
distrações terrenas, visões obscenas,
quando o oásis se desvenda no fundo
da estrada que nunca se encontra plena.
Nunca acaba esta viagem profunda,
somente os nossos passos. No futuro
não pensemos, contudo; em quão fecundo
será, se será agradável ou duro.
Viver o presente é a certa maneira
de prever sem prever nosso futuro.
Continuemos com uma cegueira
saudável a carreira que seguimos
e caução tenhamos p’ra entre a poeira
olharmos os ladrões do que sentimos,
refletidos em espelhos perdidos.
É de nós próprios de quem fugimos.
Deixemos o que por preciso é tido.
Para sonhar é bastante querê-lo.
Ter medo é ficar pelo percorrido.
Meditar no futuro é não vivê-lo.
Desistir de tudo é abandonarmo-nos.
Mas deuses podemos ainda sê-lo
se mais para trás decidirmos deixarmo-nos
na estrada do que ainda alcançaríamos.
Nem tudo é que se perde ao dissiparmo-nos.
Se mais longe na rota chegaríamos
ou não, não poderemos atinar,
somente que, ao saber que cairíamos,
se assentou a via a nós se encurtar.
Co’as concedidas ambições divinas
o mundo conseguimos transmutar:
vales, colinas, águas cristalinas
aos nossos olhos são só desperdício;
e numa coroa de farpas finas
com que coroamos nosso suplício
moldamos o tempo, com cada espinho
sendo um momento perdido e fictício
(é vivido só na mente, sozinho;
como algo acontecido recordando-o)
que deitamos fora em nosso caminho,
abandonado e deserto, soltando-o.
22.10.2016

Os últimos dias da humanidade

Nossos pais são astrónomos que estrelas
nunca viram. Quando fitam os céus
negros, brilhar veem ambições nelas;
seus lúcidos telescópios por elas
abdicam, depondo os alheios pelos seus.
 
E a Natureza se obstrui aos seus planos,
de escuro ramos cativos debaixo.
tudo exterminando, causando danos.
Somos tão grandes como o que almejamos,
se não almejarmos descer tão baixo.
 
E confusas as línguas de Babel
na frágil torre de papel em terra,
inconfundível o universal fel
que lhes dita que, num eterno anel,
são inimigos; e que venha a guerra!
 
O magno homem co’a paz não é capaz
de, pacificamente, em paz estar,
senão em guerra, esta que incapaz
é de, abstraindo-se, sensato, em paz
deixar, eternamente, descansar.
 
Desde o pó do chão da génese prima
a salvação vã se encontrou perdida.
Do bem e do mal o dualismo afina
infindo conflito que no futuro o oprima:
a fatal chave dentro de si escondida.
 
Se o há sempre acompanhado a ambiguidade
e são dele e ele os azares e alegrias,
sem o mal, que valor tem a pacificidade?
Os últimos dias da humanidade
são os que vivemos todos os dias.

A guitarra

O meu peito é uma guitarra
que sente que quer chorar.
Quando acorda, geme e agarra
suas cordas devagar.
E penosas faz vibrar
as cordas do desabafo,
e põe-se então a atuar
p’ra o público co’embaraço.
E abrindo-se assim, cora
(irão troçar ou aplaudir?).
A pobre guitarra chora
sem ninguém para a ouvir.
17.01.2017

Soneto serpentil

Sensações sãs se insinuam suavemente
como solenes sonhos sóbrios qu’sonho
sem d’scansar. Entre preces, peço à mente,
à pressa, que de mim o sonho, inconho,
 
separe, e cesse o ciciar sem fim
dessa sensação sem si que, insincera,
me alicia e desassocia de mim,
dissimula e simula o qu’ser pudera.
 
Sente-se saudade do real que adoece
face à ficção nociva que se tece.
E tento: oponho esse sonho medonho
 
que ofusca a busca da sinceridade,
sem saber ser sem sensibilidade.
Mas saberei se não sou eu o sonho?
16.01.2017

Portugal

                                                                                                           A todos os que foram e são,
                                                                                                           e àquele que foi e já não é.

 

Portugal,
Pátria Da Glória,
De Gloriosos Feitos E Mundos!
O Mundo Que És Tu Ficou Na História
E Deu Novos Mundos Ao Mundo!
No Fundo, A Tua Essência Predomina!
A Tua Magnificência Inunda E Atina
O Próprio Mar Tenebroso Que A Ti Pertence!
Pois A Grande Coragem Do Teu Espírito
A Qualquer Tempo Tempestuoso Prevalece
E Tudo Vence!
Mofina Alguma O Desatina!
Oh!, Grande Pátria!
Que Grandes Génios E Feitos Ao Mundo Não Mostraste!
Quantas Histórias De Glória Não Contaste!
Quanto Prestígio Merecido Não Alcançaste!
Em Quantos Peitos Queimado Não Deixaste
O Amor À Casa Que Criaste!
Portugal!

portugal,
pátria do passado esquecido.
génio há muito perdido,
apenas relembrado nos cantos
daqueles que, entre prantos, foram abatidos
pelo real casal do desinteresse e ignorância
que governa agora este paraíso perdido.
a história não se lembra agora
senão dos tempos temporais.
o mar que antes transbordavas leva agora a nau a ver os corais.
a boa e certa hora
da mudança há muito já passou.
ehhh ufff…, tacanha pátria,
a que tão maiores alturas te poderiam alçar
os que nos seus ombros, com suor e sangue de palavras, te decidiram suportar…
a imortalidade que poderias na mão agarrar se a ti e aos teus decidisses respeitar…
sem no olvido ter que debruçar.
sem pelo tempo perdido ter que chorar.
portugal.

portugal
patria sem mais remedio
poderias ter sido grande
mas pelo medio optaste
o conquistador que foste
ninguem to pode tirar
mas como que pareces estar satisfeito
es agora o tedio somente
daquilo que poderia ter sido
a ultima oportunidade se escapo-
se sufocou a vontade e dignidade
pelos novos e velhos gigantes da euro-
olvidada patri-
tudo o que poderias ser
nao mais o podes
decidiste esquec-
quem te alçou ao pódi-
o coração o seio o genio a desaparec-
portu-

10.06.2016

Escultura das palavras

Cair na repetição
e saber de antemão
que nada de novo
se irá encontrar.

Na monotonia das palavras,
dos gestos, da vida,
que se desenrola, esculpida,
na pedra lisa e polida
do tempo.

Estar encurralado,
cercado por um turbulento
remoinho de monotonia
que me suga
e, lento,
faz sentir na alma o desalento
que descrevo no momento
fluente da tinta do sentimento.

Todo o tempo, parado,
é imortalizado
na sempre em mudança
escultura das palavras.

10.06.2016